GENI E A BOQUINHA DA GARRAFA. Uma lei antibaixaria. Mais um esforço para não lidarmos com nossas escolhas

14 04 2012

A Deputada Luiza Maia (PT-BA) trabalha por uma lei que proíbe o uso de verbas públicas para promoção de shows com artistas que tenham em seu repertório músicas com baixarias, principalmente aquelas que ofendem as mulheres.

Criou polêmica. Mas até aí, a polêmica era até uma inclinação natural e positiva, vendo que o apoio ou pelo menos um desejo de se discutir a melhora da qualidade musical é coisa do senso comum, por mais que as paradas de sucesso demonstre o contrário. Mas eis que a deputada resolve expandir sua proposta também a MPB e julga “Geni e o zepelin” de Chico Buarque também uma ofensa as mulheres, quando o artista tem show marcado em Salvador para maio. Pronto. Está instaurada a confusão.

Eu adoro Chico Buarque e realmente não faz sentido ele ser comparado com artistas que fazem um trabalho de baixa qualidade, muito menos que ofendem as mulheres. Isso sempre acontece quando tem política envolvida. Alguém quis derrubar a deputada e forçou uma polêmica (talvez até ela mesma) provocando uma confusão e enfraquecendo o assunto. Com isso, entramos na discussão e encontramos uma bagunça e não argumentos construtivos. Assim a polêmica faz uma fumaça e as coisas vão ficando sempre na mesma. O que antes poderia ser uma oportunidade de uma discussão aberta podendo chegar a profundidade que guarda a ética, virou uma massa de barulhos desconexos e desafinados. Perdemos a oportunidade de desaprovarmos uma lei ou de aprova-la, mas acima de tudo de avançarmos no tocante a cultura.

Eu penso que tá mais do que na hora de alguém fazer alguma coisa para melhorar a qualidade cultural, principalmente musical. O ideal seria que isso fosse feito pelos próprios artistas. Mas está cada vez mais difícil encontrar união nessa classe, mesmo havendo artistas maravilhosos que mantém sua qualidade. Acredito que o fator educação seja muito importante nisso. Muitos artistas de massa são de origem humilde e sabemos como os pobres são tratados no quesito educação. Aí vira uma bola de neve. Baixa educação gera baixa cultura. Quem não se lembra do É o Tchan? Eles tinham letras ruins num contexto também ruim. Mas eles faziam um samba de roda muito bacana. Trouxeram o samba baiano de volta. O povo é quem faz a cultura. Se tivermos um povo respeitado e com condições de ter uma boa educação, a cultura produzida por esse povo será melhor. Mas um povo que não tem direito a educação produz uma cultura comprometida.

Muitos discordarão dizendo que isso não justifica e que as músicas ruins estão aí porque o povo gosta e quer. Eu discordo. Somos um povo que criou coisas maravilhosas no passado quando a educação não havia sido sucateada por completo. Outra coisa é o uso de verba pública para promover cultura ruim. Aqui já encontramos uma controvérsia. Falamos de cultura usando o adjetivo “ruim”. E mesmo que não usemos essa palavra, o contexto é esse. Cultura é cultura. Existe cultura ruim? Se existe, ela é válida?

Por isso volto novamente na questão da educação. Se o povo não aprovasse aquilo que lhe é oferecido (e cabe aqui esclarecer que essa aprovação popular é traduzida como autonomia dada pela educação), a cultura de baixa qualidade, aqueles que tratam das verbas públicas não ousariam liberar essas verbas para a promoção de algo ruim. Então eu penso que não é porque o povo quer e gosta. É porque o povo não tem acesso a qualidade e aqueles que trabalham nos gabinetes na maioria das vezes também não conhecem.

A educação ruim compromete a todos em todas as classes sociais e profissionais.  E tudo gira em torno da estúpida lógica do mercado, quando na verdade a lógica deveria ser a do valor artístico. Mas eu sou daqueles que acreditam na força do talento e no mistério que compõe a arte e a cultura do nosso país. Sempre acredito que vai mudar. E na esfera da educação encontramos assuntos como o preconceito. Há tantas coisas a serem trabalhadas. E tantas coisas maravilhosas a serem descobertas.

Geni é parte disso. Geni existe porque o preconceito e o egoísmo a fezem necessária, talvez. Esculachamos as músicas de baixa qualidade, as mulheres que rebolam na boca da garrafa e, no carnaval seguinte, adoramos os dólares que trazem os turistas que adoram te-las.

Entre tantas obras primas de Chico Buarque, Geni e o zepelin é a que mais gosto. Insuperável. E que me desculpem as senhoras casadas que ontem foram dançarinas da cordinha ou da garrafa, mas Geni é sua redenção. Vocês continuarão sendo cuspidas e bostas continuarão sendo-lhes atiradas, enquanto formos mal educados, enquanto formos machistas, preconceituosos e acima de tudo, enquanto precisarmos de leis que regulem e justifiquem as nossas escolhas e atitudes.

Anúncios




O MICROFONE

19 02 2012

Longe de andar por caminhos libidinosos, digo que o microfone sempre me aguçou os olhos, me atraiu e claro, me traiu algumas vezes. Nos anos setenta e oitenta, o modelo padrão, que hoje podemos admiti-lo como clássico, era aquele que tinha sua cápsula protegida por um globo metálico. Sempre achei parecido com o globo da morte dos espetáculos de circo, em que um motoqueiro fazia mil e umas acrobacias perigosas. Tinham e tem um corpo geralmente preto e o globo prateado. Mais tarde, nos anos oitenta, surgiram os modelos que não precisavam de fios, mas que mantinham o mesmo formato, com seu globo da morte. No lugar do fio, um transmissor.

O primeiro microfone a emitir minha voz, foi um microfone de igreja. Era um daqueles redondos, que lembravam o tempo do Elvis Presley, preso ao próprio pedestal. Não tinha o globo da morte e, portanto, não parecia um microfone, mas era o que faria minha voz ser ampliada em modestas caixas acústicas espalhadas pelo salão da Igreja da Matriz. Quando o padre pediu a ajuda de algum jovem disposto a ler uma parte do folheto da missa “O Domingo”, fui animado com vontade de ouvir minha voz microfonada. Chegando junto ao padre, ele me pergunta: “Meu filho, você já sabe ler?”. Quando eu respondi que não, ele me disse: “Então, quando você for a escola e aprender a ler, volte e poderá ajudar na missa”. Nem aquele padre e nenhuma das pessoas ali na igreja, podiam imaginar minha tristeza. Eu queria apenas ouvir minha voz, o que escondia um desejo infinitamente maior, que era cantar ao microfone. Pior. O microfone velho não chegou ao menos perto de minha boca para transmitir o meu “não”, de resposta de não saber ler.

De um jeito ético e altruísta, decidi que iria transformar aquela silenciosa tragédia em uma força transformadora. Com a ajuda de minha tia e de uma professora vizinha, aprendi a ler em pouquíssimos meses. E antes de completar os meus cinco anos de idade, retornei a missa dominical dos jovens. No exato momento em que o padre solicitou algum fiel voluntário para a leitura, levantei o braço e me dirigi dizendo “eu já sei ler”. O padre me apontou o trecho do folheto em que eu deveria ler em voz alta e ajustou o velho microfone a minha altura. A ferragem do velho pedestal fez um rangido que ecoou educadamente ao longe. Meus olhos olharam o microfone e se dirigiram para o folheto, porém para outra parte, diferente daquela apontada pelo padre. Minhas primeiras palavras ao microfone foram: “Ato penitencial”.  O eco de minha voz com meu sotaque baiano e infantil reverbera em minha alma até hoje. “Ato pénitencial, al, al, al, al…..”

Nos programas de televisão eu podia notar a importância do microfone, não só tecnicamente, mas na estética e na identidade de cada cantor e cada cantora. Gonzaguinha segurava o microfone como quem segura um bom copo de cerveja bem gelada. Tinha um charme e uma delicadeza, típico de quem estava fazendo uma coisa bacana e curtindo fazer. Ele segurava o microfone com as pontas dos dedos, longe do globo da morte. Com isso, cantava como se estivesse batendo um bom papo com amigos num botequim.

Gal Costa, minha musa, dona da voz mais incrível, bela e perfeita que já ouvi, também segurava o microfone parecido com Gonzaguinha. Ela segurava com as pontas dos dedinhos, próximo ao fio e longe do globo da morte, com o dedo mindinho bem posicionado, levemente encolhido, não esticado completamente. Só que não parecia um prazer de botequim, mas sim uma extensão de sua boca. Sua boca vermelha e alongada com sorriso malicioso com o globo da morte meio de canto. Gal Costa segurava o microfone como ninguém. Era um sorvete de morango. E com a outra mão, as vezes ela segurava o fio e fazia movimentos como quem dava chicotadas, espantando os pensamentos mais ousados de seu público e ao mesmo tempo, os aguçando. Quando ela não chicoteava, apenas segurava o fio delicadamente, como quem segura a barra da saia num baile da corte.  Pura elegância.

Outro artista que tem sua marca ao segurar o microfone é o exuberante cantor Ney Matogrosso. Ele segura o microfone diferente da Gal Costa e do Gonzaguinha. Ney Matogrosso segura o microfone como quem segura um punhal. Segura firme, fechando os punhos e próximo ao globo da morte. Uma coisa de fera e bonita. Eu sempre gostei de vê-lo cantar. Ele fazia e faz o que ninguém tem coragem de fazer. Era o próprio lobisomem, porém belo e segurando um microfone como um punhal. Talvez o único cantor a segurar o microfone com autoridade de domínio. Os outros dominam a voz e seguram o microfone de forma sublime. Ney Matogrosso domina o microfone e sua voz cavalga forte sobre ele, feito Oxóssi pela mata.

Todos os outros artistas, e imagino que isso seja algo inconsciente, seguram o microfone de uma maneira parecida. É comum segura-lo ao meio, entre o fio e o globo da morte. É como fazem até as crianças ao imitarem quem eles assistem cantar na televisão.  Quando comecei a me apresentar no palco com minhas primeiras bandas de rock em São Paulo, por influencia dos grupos, usava muito o microfone no pedestal. Em meio a loucura das apresentações, eu mesmo já me peguei chacoalhando o pedestal, girafando-o  para dar um ar de Roberto Carlos, jogando-o para cima, enfim. Coisas de rock’n roll, que não combinam com a soberania do microfone. Com isso, percebi um certo distanciamento dos cantores com o microfone. A medida que o canto foi perdendo o espaço, a canção cedendo ao ritmo, o lance com o microfone foi desaparecendo.

Posso considerar também a hipótese desse lance entre o cantor e o microfone nunca ter existido de fato, pelo menos com alguma significativa importância, ou ainda, que tenha sido apenas um detalhe sutil percebido por mim que se tornou freqüente e apreciativo. Sendo ou não, existe uma perda de um certo glamour na postura dos cantores e cantoras. Obviamente, devemos considerar também a hipótese da irrelevância dessa perda, mas em todo o caso, o microfone inevitavelmente sobrevive a essas hipóteses pelo simples fato de ser indispensável, mesmo quando se trata de espetáculo musical de teatro em que são usados modelos minúsculos presos as nucas dos cantores e atores e se estendendo muito discretamente até o cantinho de suas bocas.

Soube de um caso em que um cantor havia morrido por conta de um choque elétrico que sofreu ao apanhar o microfone. Imaginei que casos como esse tenham motivado o surgimento dos microfones sem fio, o que diminuiu também acidentes ligados não somente a eletricidade, mas também aos tropeços e por que não dizer, o favorecimento de uma certa limpeza técnica. Com tudo, em um mundo já depois do ano dois mil, mesmo o tão ignorado microfone, deve ser modernizado e wireless.

Medo. É uma espécie de medo e fascínio que o microfone causa em quem canta. Junto ao medo da platéia, em alguns casos. Preocupações e travações por qualquer que seja o motivo podem ocorrer uma vez ou outra, mas o medo do microfone é sutil demais para ser percebido. Mas é o microfone quem grita ao ego, ao coração do artista e acorda o cantor para que ele assuma sua condição naquela hora. E Maria Bethânia brilhantemente me parece não viver isso. Ela também segura o microfone com delicadeza, longe do globo da morte, com as pontas dos dedos e com seu polegar mais esticados que o da Gal. Quando ela levanta a cabeça, parece beber seu próprio canto. É muito bonito. Maria Bethânia domina o microfone com respeito.

Eu sempre respeitei os técnicos de som em todos os lugares onde cantei. E mesmo assistindo a shows de outras pessoas, pensava na pessoa que cuidou da microfonação e que eu nem vi e nem conhecia. É como se o técnico de som tenha um conhecimento maior do que o cantor, musico e platéia. Conhecimento e poder. O cantor pode se sentir tranqüilo e sem medo do microfone, quando o microfone esta sendo bem tratado por um bom técnico. Eu digo do microfone, porque é ele o contato mais direto com a realização de tudo. João Gilberto que o diga. Nina Simone que o diga.

Há também as vozes que parecem estabelecer uma harmonia com o microfone. A voz do Djavan me sugere isso. Já assisti shows do Djavan em que sua voz estava perfeita, não só em timbre e afinação, mas no seu tratamento com o microfone. O brilho e a testura certos. O mesmo ocorre com seus discos. Admiro muito isso no Djavan entre outras qualidades dentro do seu trabalho. E é claro, Gal Costa cabe perfeitamente nesse mesmo parágrafo.

Enfim, eu gosto dos microfones. Talvez um dia eu inicie uma coleção deles. Gosto da sua fidelidade aos cantores e sua cumplicidade com os mesmos. Afinal, quem conhecia melhor Carmem Miranda do que o microfone estilo microfone de rádio?





Sorte

25 11 2011

Arrisco em dizer que todo mundo algum dia já se pôs a pensar sobre a sorte. Em algum momento, duvidamos, desejamos ou simplesmente a transformamos em apenas uma palavra que sai pela boca gratuita e automaticamente como a maioria das boas e educadas palavras. Boa sorte!

Por experiência própria, desde pequeno, sempre achei que a sorte fosse algo que acontece todos os dias com todo mundo, mas que podia variar em tamanho. Imaginava que pudessem existir sortes do tamanho de um grão de areia ou menores, sorte do tamanho de um grão de feijão, de um ovo e até mesmo sorte do tamanho de um trio-elétrico. Por sorte, e graças a Deus, existiam as sortes do tamanho dos grãos de areia. Essas eram abundantes e dava pra todo mundo.

E as sortes do tamanho de um grão de areia podiam parecer um pouco maiores, pois naquele meu tempo, achar um cajú ou uma manga ao alcance das mãos num caminho qualquer da Bahia, era motivo pra dizer: “Oba! Hoje eu to com sorte!”.

Certa vez, estava eu e minha amiga Margarida sentados no passeio de casa. Abríamos envelopes de figurinhas para colar num álbum que dava prêmios aos sortudos que por ventura ou sorte achassem uma figurinha premiada. Eram prêmios que variavam entre as sortes do tipo grãos e as sortes do tipo trio-elétrico. Resolvemos trocar alguns envelopes. Imagino que nisso já havia o fenômeno sorte rondando de um jeito ou de outro nossa brincadeira. Ao abrir um envelope que inicialmente seria dela, encontrei uma figurinha premiada que dizia: “Parabéns! Você acaba de ganhar um prêmio! Vele um cinzeiro”. Eu que nem fumava tive a sorte de ganhar um cinzeiro. Tudo bem. Sorte é sorte. Não interessa qual nem o tamanho. A alegria de ter tido sorte já era por sí do tamanho do céu.

E Margarida, no lamento da perda da sua sorte dizia: “aquele envelope era meu”. Então eu disse: “Mas, Gai – era como eu a chamava – acho que a sorte foi sua mesmo. Já que eu não fumo, você pode ficar com o cinzeiro pra colocar na sua casinha”. Brincávamos sempre de sermos adultos. Ela era ora minha esposa, ora uma dona de uma casa qualquer, ora uma comadre. Por sorte, nossa vida adulta de brincadeira era simples assim.
Já adulto, comecei a apostar na loteria. Corro o risco de ser atropelado por um trio elétrico. Mas hoje, especialmente, estou com muita vontade de ficar descalço e por o pé no chão. Sentir o meu pé se sujar de areia e sujeiras ainda menores. Hoje quero ter a sorte de ter um prumo. Sentir que o mundo é forte e pesado. Que ele é feito de coisinhas infinitamente pequenas.

Se eu conseguir acreditar realmente nisso que estou falando agora e me sentir feliz, direi então que um trio-elétrico é feito de bilhares de grãos de areia. E o que dizer de um cisco que entra no olho? Por sorte, inventaram o colírio. Na falta dele, temos a água. Longe da torneira, um amigo pra soprar. Longe de um amigo, o próprio vento novamente.  Parece me então que a sorte é mesmo infinitamente menor que um grão de areia. Menor que o invisível.  A sorte é como o vento, se não for o próprio.

Que bons ventos a tragam!  Que bons ventos levem o odor dos gazes!





a classe média

25 11 2011

Tenho 38 anos, sou solteiro e ainda moro em casa de minha mãe. Não tenho carro*. Sou o que chamam de mestiço que por costume ou preguiça do cartório de “novalgina”, apelido dado por Renato Borghi à minha cidade natal, Jacobina na Bahia, não tenho como descrição de cor a qualidade parda. Ando fazendo umas músicas e cantando aqui e acolá. Me formei em filosofia e tô metido com gente de teatro e gente que toca maracatu, cinema e poesia. Tenho o bilhete único que me garante praticidade e economia nos transportes urbanos de São Paulo. Já falei na televisão que os shows das drag queens eram uma novidade que a mídia ainda não tinha estragado. Voltei à televisão poucas vezes e só para cantar.

Respondi aquele questionário sobre situação social antes de responder as questões do vestibular onde informei verdadeiramente morar em casa própria com mais de quatro quartos, três banheiros, falar um idioma estrangeiro, ter todos os eletrodomésticos que se espera ter, ter acesso a internet banda larga, ler jornal, revistas, comprar discos, livros e consumir cultura de massa. Pronto. Depois dessas verdades, eles, os quais ninguém sabe quem são exatamente, já sabem quem eu sou. Sou um rapaz de classe média candidato a vaga de estudante de filosofia. Isso é tudo. Se eu acertar uma média de perguntas, tô dentro. Claro, um candidato vindo da classe média, certamente deve ter informando que estudou em escola particular e mesmo quando estudou em escola pública, morava num bairro de classe média com escola pública também de classe média.

E como todos os classes médias, continuamos as nossas vidinhas medianas fazendo uma média de tudo. Acreditamos no apelo da indústria da segurança que de uma forma ou de outra se relaciona com a cultura de classe média que diz que, esse tipo de questionário tem como objetivo apenas demarcar um pefil sócio-cultural (econômico) dos candidatos, e que deve haver câmeras de segurança em todos os lugares e até mesmo nas salas escuras dos cinemas. E quando um mediano tem um lápso de lucidez, as estatísticas surgem como uma injeção de verdade competente. Os números mostram sempre a verdade sobre a média de todos os acontecimentos que possamos imaginar. Devemos obedecer a esses fatos. Amém.

Não se procura mais saber sobre a morte de Deus, nem sobre a morte da política. Economia. Essa sim é a ordem vigente. Ordena o equilíbrio mediano. Um equilíbrio medíocre. Foge aos interesses médios dessa ordem os efeitos altos da banalização do horror. Crimes cometidos pela classe baixa não ganham destaque. São computados e contabilizados, mas sua importância se restringe apenas em provar que a indústria da segurança é necessária. Crimes cometidos pela classe média ganham destaque. São reproduzidos pelas câmeras que essa mesma classe pode comprar pra sua própria segurança.

Não, não estou misturando as estações e escrevendo elucubrações cognoscíveis apenas para mim mesmo. O que estou relacionando é o fato de que a classe média é, antes de mais nada, um senso. Um consenso e também um contra-senso entre todas as vítimas do erro do contrato social e o golpe que esse contrato sofreu pela substituição de todos os valores por um único valor. Aponto aqui o valor econômico. Como artista, posso dizer que a bonita frase que diz que “o artista vai onde o povo está”, muitas vezes é uma mentira. Ora por conta dos artistas, ora por conta das dificuldades econômicas do fazer cultura. Muitos artistas cantam o povo, mas tal qual o mau político, quer distância dele. Não prego o desapego nem a miséria para o artista,  apenas não acho verdadeiro cantar o samba de longe, sem subir o morro de vez em quanto pra tomar ao menhos um cafézinho. Que verdade teria um artista pura classe média cantando “Barracão de Zinco”?

E digo que tal contra-senso causa tamanha cegueira, que tal qual os ratinhos brancos que correm sem parar naquelas rodinhas-gaiolas de arame, não nos damos conta nem mesmo do cansaço e da estupidez que é correr sem sair do mesmo lugar. O Brasil vive um belo momento na política social e avançamos muito. Mesmo assim, por meio da morte da própria política e do contínuo fortalecimento da economia. A classe média (econômica) aumenta. Não vejo nisso um perigo. Pelo contrário, vejo nisso muita alegria. O perigo está no aumento da classe média medíocre, consumista, imitadora da pobreza cultural estrangeira. Tenho medo do fortalecimento do positivismo já tão enraizado no nosso país. Que o mercado iluda o trabalhador que ganha dignidade e o transforme em medíocre no senso mediano de classe média. O que será do samba ainda mais?

Esse senso classe média permeia todos os seguimentos. Toxina botulínica deixa o sorrizo em um tom ideal, não se pode gargalhar nem expressar rudez. Toda mulher mediana, leia-se, de classe média, deve sorrir medianamente. Sim, a burguesia quer ficar rica. E os ricos alimentam esse querer porque sabem que isso alimenta sua riqueza. Relaciono então nosso ratinho medíocre com a frase de Cazuza: “a burguesia fede e quer ficar rica”. Cazuza, que hoje me faz sentido de uma forma alargada*,  ao que me parece, foi um artista de posses, porém, não aguçou jamais a estupidez de ninguém. Desconfio que ele não era mediano não. Acho que ele era das duas pontas. Hora péssimo, hora excelente. E é desse tipo de gente que talvez virá alguma luz.

Cafonice não é medíocridade*. Chacrinha. Um velho rodeado de mulheres sensuais num cassino em pleno sábado a tarde distribuindo frutas tropicais e bacalhau para um auditório formado por estudantes da classe baixa. Sem média. Alcione sabe cantar e abre seu berreiro potente e fala da dor de cotovelo que as mulheres e cantoras medianas sufocam sem poder se expressar, vide botulínica, nos divãs e nas faturas dos cartões de crédito.

As filas nos grandes teatros comerciais não existem apesar dos espetáculos baterem recordes de público. Falo da fila da bilheteria, pois a fila do estacionamento…. Vixe! Os medianos compram seus ingressos on line. E saem das salas sorrindo botulinicamente, com a sensação de terem cumprido o protocolo do senso fraudador do contrato que diz que, embora seus olhos tenham visto tantas luzes e maravilhas, suas almas não encontraram nada.

As crianças que passam os dias nos CEUs, se por ventura sofrerem abusos ou forem assassinadas, simplesmente sofrem abusos e são assassinadas e podem entrar para as estatísticas. As crianças que moram nos andares de cima e ficam mais próximas do céu, estão mais protegidas. E, se por ventura sofrerem abusos ou forem assassinadas, os alarmes soam anunciando que algo escapou do senso médio previsto. Oxalá proteja todas as crianças!

E mesmo usando bilhete único e metrô lotado pelos corredores urbanos paulistas, todos os usuários são do senso. Todos nós somos medianos. Todos nós somos da classe média. Claro. O que vai nos selar com tais é o fato de aparecer um vendedor ambulante ou um pedinte contando sua saga. Pronto. Sempre que há alguém menos favorecido que eu, reafirmo minha posição de classe média.

Esse contrato social de boca suja, diz que o vergonhoso é estar abaixo da média.

Eu e todos os escrotos, que transitam entre o mais alto possível e o mais baixo visível, nos inojamos com o senso da média.

Problemas e discussões rodam em torno apenas do salário mínimo. O máximo é o impensável. Enquanto que a média salarial é o alvo. Uma média alta sempre. Claro. Contra-senso. Sempre.

As casas de alvenaria poderiam indicar o progresso das favelas. Nelas praticamente não existem mais os barracos de madeira e papelão. Abaixo das favelas, as pontes, albergues, viadutos e penitenciárias. Favela também é classe média. Favelas verticais com câmera de segurança, taxa de lixo e condomínio fingem não ser.

E a mídia, gozando de sua liberdade e total contra-senso no que se refere a ética e a moral, se manifesta, denuncia, mobiliza, divulga e, claro, por ser operada por ex-estudantes de comunicação e jornalismo da classe média, segue sobre tudo isso, fazendo uma média.

——————————————————————————————

NOTAS ESCLARECIMENTOS E DICAS BAIXAS E ALTAS:

Achei interessante indicar, apontar ou simplesmente esclarecer pontos que por ventura possam merecer um certo além. Coisas como de onde surgiu tal coisa ou assunto. Esses pontos não serão sinalizados com números referenciais como em notas de rodapé, mas com asterisco. Então…..

*sobre não ter um carro, me lembrei de um livro da coleção Baderna, uma publicação que saiu de circulação e tinha o apoio da PUC-SP em favor da filosofia e do pensamento no Brasil, com títulos muito bacanas. Sugiro “A ditadura do automóvel” da coleção Baderna encontrados em sebos de qualidade.

* sobre fazer sentido de uma forma alargada, tem a ver com o ponto de vista de Hans-Georg Gadamer sobre hermenêutica filosófica, onde de certa forma, uma experiência com a arte nos proporciona um alargamento do nosso ser. Uma melhora, talvez. No caso da frase de Cazuza, eu hoje pude mergulhar sem reservas na sua proposta, ao contrário do que fiz no final dos anos 80.

* sobre cafonice, mediocridade e Chacrinha, relaciono tudo isso com tropicalismo, modernismo e antropofagia. A busca por esses assuntos pode ser espontânea e o achado também. Vale YouTube, o livrinho do Celso Favareto sobre o tropicalismo, informação sobre Oswald de Andrade, Villa-Lobos ou até mesmo ensaios em escolas de samba. Livre. Se conceituar demais pode virar coisa de classe média. Cuidado. E pra desequilibrar mesmo a mediocridade, sugiro visitar ensaios das escolas de samba da zona norte e da zona leste. Nada contra a Vai-Vai, que é tradição, mas o fato dela ficar localizada no centro, acaba ajudando o senso mediano que tem preguiça de ir até escolas também tradicionais como Nenê de Vila Matilde e outras que têm um samba bom, como a Leandro de Itaquera, que ficam na zona leste. Sair da medíocridade existe sacrifício.

*sobre a arte do povo brasileiro, estou me referindo a isso mesmo. Diferencio como Marilena Chauí, o nacional e o popular. Digo que o povo que não influi nas estatísticas é quem faz a arte que os artistas de classe média se apaixonam e levam adiante até que a paixão acaba e o povo não volta para o esquecimento. O povo continua nele. Pinturas do período colonial do Brasil são belíssimas retratando o tempo da escravidão. O batuque dos negros é xique e maravilhoso. Mas não tinge o coração nem a pele da classe média. Artistas medíocres brincam de ser negros e mantém seus sobrenomes importados no seus nomes artísticos. Jésum Biasin é Biasin. Mas ele nunca brincou de ser negro. Jésum é povo. É xique por que é de verdade. Renato Borghi e todos os artistas verdadeiros também.

* sobre eu tirar o meu da reta, digo que virei Rocky, mas continuei Gomes e sou de Sousa. Estou na média mas sou artista e estou do lado esquerdo e direito. Estou nas duas pontas. Sou dos nomes de frutas com os Mangabeiras e Pereiras. Negros e judeus de nomes inventados abaixo do equador. O meu não está na reta porque transito de um extremo ao outro. Não faço média em nenhuma das duas pontas. Eu sou eu sempre. E o meu sempre me acompanha, dirrétinho. Saravá!








%d blogueiros gostam disto: