GENI E A BOQUINHA DA GARRAFA. Uma lei antibaixaria. Mais um esforço para não lidarmos com nossas escolhas

14 04 2012

A Deputada Luiza Maia (PT-BA) trabalha por uma lei que proíbe o uso de verbas públicas para promoção de shows com artistas que tenham em seu repertório músicas com baixarias, principalmente aquelas que ofendem as mulheres.

Criou polêmica. Mas até aí, a polêmica era até uma inclinação natural e positiva, vendo que o apoio ou pelo menos um desejo de se discutir a melhora da qualidade musical é coisa do senso comum, por mais que as paradas de sucesso demonstre o contrário. Mas eis que a deputada resolve expandir sua proposta também a MPB e julga “Geni e o zepelin” de Chico Buarque também uma ofensa as mulheres, quando o artista tem show marcado em Salvador para maio. Pronto. Está instaurada a confusão.

Eu adoro Chico Buarque e realmente não faz sentido ele ser comparado com artistas que fazem um trabalho de baixa qualidade, muito menos que ofendem as mulheres. Isso sempre acontece quando tem política envolvida. Alguém quis derrubar a deputada e forçou uma polêmica (talvez até ela mesma) provocando uma confusão e enfraquecendo o assunto. Com isso, entramos na discussão e encontramos uma bagunça e não argumentos construtivos. Assim a polêmica faz uma fumaça e as coisas vão ficando sempre na mesma. O que antes poderia ser uma oportunidade de uma discussão aberta podendo chegar a profundidade que guarda a ética, virou uma massa de barulhos desconexos e desafinados. Perdemos a oportunidade de desaprovarmos uma lei ou de aprova-la, mas acima de tudo de avançarmos no tocante a cultura.

Eu penso que tá mais do que na hora de alguém fazer alguma coisa para melhorar a qualidade cultural, principalmente musical. O ideal seria que isso fosse feito pelos próprios artistas. Mas está cada vez mais difícil encontrar união nessa classe, mesmo havendo artistas maravilhosos que mantém sua qualidade. Acredito que o fator educação seja muito importante nisso. Muitos artistas de massa são de origem humilde e sabemos como os pobres são tratados no quesito educação. Aí vira uma bola de neve. Baixa educação gera baixa cultura. Quem não se lembra do É o Tchan? Eles tinham letras ruins num contexto também ruim. Mas eles faziam um samba de roda muito bacana. Trouxeram o samba baiano de volta. O povo é quem faz a cultura. Se tivermos um povo respeitado e com condições de ter uma boa educação, a cultura produzida por esse povo será melhor. Mas um povo que não tem direito a educação produz uma cultura comprometida.

Muitos discordarão dizendo que isso não justifica e que as músicas ruins estão aí porque o povo gosta e quer. Eu discordo. Somos um povo que criou coisas maravilhosas no passado quando a educação não havia sido sucateada por completo. Outra coisa é o uso de verba pública para promover cultura ruim. Aqui já encontramos uma controvérsia. Falamos de cultura usando o adjetivo “ruim”. E mesmo que não usemos essa palavra, o contexto é esse. Cultura é cultura. Existe cultura ruim? Se existe, ela é válida?

Por isso volto novamente na questão da educação. Se o povo não aprovasse aquilo que lhe é oferecido (e cabe aqui esclarecer que essa aprovação popular é traduzida como autonomia dada pela educação), a cultura de baixa qualidade, aqueles que tratam das verbas públicas não ousariam liberar essas verbas para a promoção de algo ruim. Então eu penso que não é porque o povo quer e gosta. É porque o povo não tem acesso a qualidade e aqueles que trabalham nos gabinetes na maioria das vezes também não conhecem.

A educação ruim compromete a todos em todas as classes sociais e profissionais.  E tudo gira em torno da estúpida lógica do mercado, quando na verdade a lógica deveria ser a do valor artístico. Mas eu sou daqueles que acreditam na força do talento e no mistério que compõe a arte e a cultura do nosso país. Sempre acredito que vai mudar. E na esfera da educação encontramos assuntos como o preconceito. Há tantas coisas a serem trabalhadas. E tantas coisas maravilhosas a serem descobertas.

Geni é parte disso. Geni existe porque o preconceito e o egoísmo a fezem necessária, talvez. Esculachamos as músicas de baixa qualidade, as mulheres que rebolam na boca da garrafa e, no carnaval seguinte, adoramos os dólares que trazem os turistas que adoram te-las.

Entre tantas obras primas de Chico Buarque, Geni e o zepelin é a que mais gosto. Insuperável. E que me desculpem as senhoras casadas que ontem foram dançarinas da cordinha ou da garrafa, mas Geni é sua redenção. Vocês continuarão sendo cuspidas e bostas continuarão sendo-lhes atiradas, enquanto formos mal educados, enquanto formos machistas, preconceituosos e acima de tudo, enquanto precisarmos de leis que regulem e justifiquem as nossas escolhas e atitudes.

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