O MICROFONE

19 02 2012

Longe de andar por caminhos libidinosos, digo que o microfone sempre me aguçou os olhos, me atraiu e claro, me traiu algumas vezes. Nos anos setenta e oitenta, o modelo padrão, que hoje podemos admiti-lo como clássico, era aquele que tinha sua cápsula protegida por um globo metálico. Sempre achei parecido com o globo da morte dos espetáculos de circo, em que um motoqueiro fazia mil e umas acrobacias perigosas. Tinham e tem um corpo geralmente preto e o globo prateado. Mais tarde, nos anos oitenta, surgiram os modelos que não precisavam de fios, mas que mantinham o mesmo formato, com seu globo da morte. No lugar do fio, um transmissor.

O primeiro microfone a emitir minha voz, foi um microfone de igreja. Era um daqueles redondos, que lembravam o tempo do Elvis Presley, preso ao próprio pedestal. Não tinha o globo da morte e, portanto, não parecia um microfone, mas era o que faria minha voz ser ampliada em modestas caixas acústicas espalhadas pelo salão da Igreja da Matriz. Quando o padre pediu a ajuda de algum jovem disposto a ler uma parte do folheto da missa “O Domingo”, fui animado com vontade de ouvir minha voz microfonada. Chegando junto ao padre, ele me pergunta: “Meu filho, você já sabe ler?”. Quando eu respondi que não, ele me disse: “Então, quando você for a escola e aprender a ler, volte e poderá ajudar na missa”. Nem aquele padre e nenhuma das pessoas ali na igreja, podiam imaginar minha tristeza. Eu queria apenas ouvir minha voz, o que escondia um desejo infinitamente maior, que era cantar ao microfone. Pior. O microfone velho não chegou ao menos perto de minha boca para transmitir o meu “não”, de resposta de não saber ler.

De um jeito ético e altruísta, decidi que iria transformar aquela silenciosa tragédia em uma força transformadora. Com a ajuda de minha tia e de uma professora vizinha, aprendi a ler em pouquíssimos meses. E antes de completar os meus cinco anos de idade, retornei a missa dominical dos jovens. No exato momento em que o padre solicitou algum fiel voluntário para a leitura, levantei o braço e me dirigi dizendo “eu já sei ler”. O padre me apontou o trecho do folheto em que eu deveria ler em voz alta e ajustou o velho microfone a minha altura. A ferragem do velho pedestal fez um rangido que ecoou educadamente ao longe. Meus olhos olharam o microfone e se dirigiram para o folheto, porém para outra parte, diferente daquela apontada pelo padre. Minhas primeiras palavras ao microfone foram: “Ato penitencial”.  O eco de minha voz com meu sotaque baiano e infantil reverbera em minha alma até hoje. “Ato pénitencial, al, al, al, al…..”

Nos programas de televisão eu podia notar a importância do microfone, não só tecnicamente, mas na estética e na identidade de cada cantor e cada cantora. Gonzaguinha segurava o microfone como quem segura um bom copo de cerveja bem gelada. Tinha um charme e uma delicadeza, típico de quem estava fazendo uma coisa bacana e curtindo fazer. Ele segurava o microfone com as pontas dos dedos, longe do globo da morte. Com isso, cantava como se estivesse batendo um bom papo com amigos num botequim.

Gal Costa, minha musa, dona da voz mais incrível, bela e perfeita que já ouvi, também segurava o microfone parecido com Gonzaguinha. Ela segurava com as pontas dos dedinhos, próximo ao fio e longe do globo da morte, com o dedo mindinho bem posicionado, levemente encolhido, não esticado completamente. Só que não parecia um prazer de botequim, mas sim uma extensão de sua boca. Sua boca vermelha e alongada com sorriso malicioso com o globo da morte meio de canto. Gal Costa segurava o microfone como ninguém. Era um sorvete de morango. E com a outra mão, as vezes ela segurava o fio e fazia movimentos como quem dava chicotadas, espantando os pensamentos mais ousados de seu público e ao mesmo tempo, os aguçando. Quando ela não chicoteava, apenas segurava o fio delicadamente, como quem segura a barra da saia num baile da corte.  Pura elegância.

Outro artista que tem sua marca ao segurar o microfone é o exuberante cantor Ney Matogrosso. Ele segura o microfone diferente da Gal Costa e do Gonzaguinha. Ney Matogrosso segura o microfone como quem segura um punhal. Segura firme, fechando os punhos e próximo ao globo da morte. Uma coisa de fera e bonita. Eu sempre gostei de vê-lo cantar. Ele fazia e faz o que ninguém tem coragem de fazer. Era o próprio lobisomem, porém belo e segurando um microfone como um punhal. Talvez o único cantor a segurar o microfone com autoridade de domínio. Os outros dominam a voz e seguram o microfone de forma sublime. Ney Matogrosso domina o microfone e sua voz cavalga forte sobre ele, feito Oxóssi pela mata.

Todos os outros artistas, e imagino que isso seja algo inconsciente, seguram o microfone de uma maneira parecida. É comum segura-lo ao meio, entre o fio e o globo da morte. É como fazem até as crianças ao imitarem quem eles assistem cantar na televisão.  Quando comecei a me apresentar no palco com minhas primeiras bandas de rock em São Paulo, por influencia dos grupos, usava muito o microfone no pedestal. Em meio a loucura das apresentações, eu mesmo já me peguei chacoalhando o pedestal, girafando-o  para dar um ar de Roberto Carlos, jogando-o para cima, enfim. Coisas de rock’n roll, que não combinam com a soberania do microfone. Com isso, percebi um certo distanciamento dos cantores com o microfone. A medida que o canto foi perdendo o espaço, a canção cedendo ao ritmo, o lance com o microfone foi desaparecendo.

Posso considerar também a hipótese desse lance entre o cantor e o microfone nunca ter existido de fato, pelo menos com alguma significativa importância, ou ainda, que tenha sido apenas um detalhe sutil percebido por mim que se tornou freqüente e apreciativo. Sendo ou não, existe uma perda de um certo glamour na postura dos cantores e cantoras. Obviamente, devemos considerar também a hipótese da irrelevância dessa perda, mas em todo o caso, o microfone inevitavelmente sobrevive a essas hipóteses pelo simples fato de ser indispensável, mesmo quando se trata de espetáculo musical de teatro em que são usados modelos minúsculos presos as nucas dos cantores e atores e se estendendo muito discretamente até o cantinho de suas bocas.

Soube de um caso em que um cantor havia morrido por conta de um choque elétrico que sofreu ao apanhar o microfone. Imaginei que casos como esse tenham motivado o surgimento dos microfones sem fio, o que diminuiu também acidentes ligados não somente a eletricidade, mas também aos tropeços e por que não dizer, o favorecimento de uma certa limpeza técnica. Com tudo, em um mundo já depois do ano dois mil, mesmo o tão ignorado microfone, deve ser modernizado e wireless.

Medo. É uma espécie de medo e fascínio que o microfone causa em quem canta. Junto ao medo da platéia, em alguns casos. Preocupações e travações por qualquer que seja o motivo podem ocorrer uma vez ou outra, mas o medo do microfone é sutil demais para ser percebido. Mas é o microfone quem grita ao ego, ao coração do artista e acorda o cantor para que ele assuma sua condição naquela hora. E Maria Bethânia brilhantemente me parece não viver isso. Ela também segura o microfone com delicadeza, longe do globo da morte, com as pontas dos dedos e com seu polegar mais esticados que o da Gal. Quando ela levanta a cabeça, parece beber seu próprio canto. É muito bonito. Maria Bethânia domina o microfone com respeito.

Eu sempre respeitei os técnicos de som em todos os lugares onde cantei. E mesmo assistindo a shows de outras pessoas, pensava na pessoa que cuidou da microfonação e que eu nem vi e nem conhecia. É como se o técnico de som tenha um conhecimento maior do que o cantor, musico e platéia. Conhecimento e poder. O cantor pode se sentir tranqüilo e sem medo do microfone, quando o microfone esta sendo bem tratado por um bom técnico. Eu digo do microfone, porque é ele o contato mais direto com a realização de tudo. João Gilberto que o diga. Nina Simone que o diga.

Há também as vozes que parecem estabelecer uma harmonia com o microfone. A voz do Djavan me sugere isso. Já assisti shows do Djavan em que sua voz estava perfeita, não só em timbre e afinação, mas no seu tratamento com o microfone. O brilho e a testura certos. O mesmo ocorre com seus discos. Admiro muito isso no Djavan entre outras qualidades dentro do seu trabalho. E é claro, Gal Costa cabe perfeitamente nesse mesmo parágrafo.

Enfim, eu gosto dos microfones. Talvez um dia eu inicie uma coleção deles. Gosto da sua fidelidade aos cantores e sua cumplicidade com os mesmos. Afinal, quem conhecia melhor Carmem Miranda do que o microfone estilo microfone de rádio?

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