Sorte

25 11 2011

Arrisco em dizer que todo mundo algum dia já se pôs a pensar sobre a sorte. Em algum momento, duvidamos, desejamos ou simplesmente a transformamos em apenas uma palavra que sai pela boca gratuita e automaticamente como a maioria das boas e educadas palavras. Boa sorte!

Por experiência própria, desde pequeno, sempre achei que a sorte fosse algo que acontece todos os dias com todo mundo, mas que podia variar em tamanho. Imaginava que pudessem existir sortes do tamanho de um grão de areia ou menores, sorte do tamanho de um grão de feijão, de um ovo e até mesmo sorte do tamanho de um trio-elétrico. Por sorte, e graças a Deus, existiam as sortes do tamanho dos grãos de areia. Essas eram abundantes e dava pra todo mundo.

E as sortes do tamanho de um grão de areia podiam parecer um pouco maiores, pois naquele meu tempo, achar um cajú ou uma manga ao alcance das mãos num caminho qualquer da Bahia, era motivo pra dizer: “Oba! Hoje eu to com sorte!”.

Certa vez, estava eu e minha amiga Margarida sentados no passeio de casa. Abríamos envelopes de figurinhas para colar num álbum que dava prêmios aos sortudos que por ventura ou sorte achassem uma figurinha premiada. Eram prêmios que variavam entre as sortes do tipo grãos e as sortes do tipo trio-elétrico. Resolvemos trocar alguns envelopes. Imagino que nisso já havia o fenômeno sorte rondando de um jeito ou de outro nossa brincadeira. Ao abrir um envelope que inicialmente seria dela, encontrei uma figurinha premiada que dizia: “Parabéns! Você acaba de ganhar um prêmio! Vele um cinzeiro”. Eu que nem fumava tive a sorte de ganhar um cinzeiro. Tudo bem. Sorte é sorte. Não interessa qual nem o tamanho. A alegria de ter tido sorte já era por sí do tamanho do céu.

E Margarida, no lamento da perda da sua sorte dizia: “aquele envelope era meu”. Então eu disse: “Mas, Gai – era como eu a chamava – acho que a sorte foi sua mesmo. Já que eu não fumo, você pode ficar com o cinzeiro pra colocar na sua casinha”. Brincávamos sempre de sermos adultos. Ela era ora minha esposa, ora uma dona de uma casa qualquer, ora uma comadre. Por sorte, nossa vida adulta de brincadeira era simples assim.
Já adulto, comecei a apostar na loteria. Corro o risco de ser atropelado por um trio elétrico. Mas hoje, especialmente, estou com muita vontade de ficar descalço e por o pé no chão. Sentir o meu pé se sujar de areia e sujeiras ainda menores. Hoje quero ter a sorte de ter um prumo. Sentir que o mundo é forte e pesado. Que ele é feito de coisinhas infinitamente pequenas.

Se eu conseguir acreditar realmente nisso que estou falando agora e me sentir feliz, direi então que um trio-elétrico é feito de bilhares de grãos de areia. E o que dizer de um cisco que entra no olho? Por sorte, inventaram o colírio. Na falta dele, temos a água. Longe da torneira, um amigo pra soprar. Longe de um amigo, o próprio vento novamente.  Parece me então que a sorte é mesmo infinitamente menor que um grão de areia. Menor que o invisível.  A sorte é como o vento, se não for o próprio.

Que bons ventos a tragam!  Que bons ventos levem o odor dos gazes!

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