a classe média

25 11 2011

Tenho 38 anos, sou solteiro e ainda moro em casa de minha mãe. Não tenho carro*. Sou o que chamam de mestiço que por costume ou preguiça do cartório de “novalgina”, apelido dado por Renato Borghi à minha cidade natal, Jacobina na Bahia, não tenho como descrição de cor a qualidade parda. Ando fazendo umas músicas e cantando aqui e acolá. Me formei em filosofia e tô metido com gente de teatro e gente que toca maracatu, cinema e poesia. Tenho o bilhete único que me garante praticidade e economia nos transportes urbanos de São Paulo. Já falei na televisão que os shows das drag queens eram uma novidade que a mídia ainda não tinha estragado. Voltei à televisão poucas vezes e só para cantar.

Respondi aquele questionário sobre situação social antes de responder as questões do vestibular onde informei verdadeiramente morar em casa própria com mais de quatro quartos, três banheiros, falar um idioma estrangeiro, ter todos os eletrodomésticos que se espera ter, ter acesso a internet banda larga, ler jornal, revistas, comprar discos, livros e consumir cultura de massa. Pronto. Depois dessas verdades, eles, os quais ninguém sabe quem são exatamente, já sabem quem eu sou. Sou um rapaz de classe média candidato a vaga de estudante de filosofia. Isso é tudo. Se eu acertar uma média de perguntas, tô dentro. Claro, um candidato vindo da classe média, certamente deve ter informando que estudou em escola particular e mesmo quando estudou em escola pública, morava num bairro de classe média com escola pública também de classe média.

E como todos os classes médias, continuamos as nossas vidinhas medianas fazendo uma média de tudo. Acreditamos no apelo da indústria da segurança que de uma forma ou de outra se relaciona com a cultura de classe média que diz que, esse tipo de questionário tem como objetivo apenas demarcar um pefil sócio-cultural (econômico) dos candidatos, e que deve haver câmeras de segurança em todos os lugares e até mesmo nas salas escuras dos cinemas. E quando um mediano tem um lápso de lucidez, as estatísticas surgem como uma injeção de verdade competente. Os números mostram sempre a verdade sobre a média de todos os acontecimentos que possamos imaginar. Devemos obedecer a esses fatos. Amém.

Não se procura mais saber sobre a morte de Deus, nem sobre a morte da política. Economia. Essa sim é a ordem vigente. Ordena o equilíbrio mediano. Um equilíbrio medíocre. Foge aos interesses médios dessa ordem os efeitos altos da banalização do horror. Crimes cometidos pela classe baixa não ganham destaque. São computados e contabilizados, mas sua importância se restringe apenas em provar que a indústria da segurança é necessária. Crimes cometidos pela classe média ganham destaque. São reproduzidos pelas câmeras que essa mesma classe pode comprar pra sua própria segurança.

Não, não estou misturando as estações e escrevendo elucubrações cognoscíveis apenas para mim mesmo. O que estou relacionando é o fato de que a classe média é, antes de mais nada, um senso. Um consenso e também um contra-senso entre todas as vítimas do erro do contrato social e o golpe que esse contrato sofreu pela substituição de todos os valores por um único valor. Aponto aqui o valor econômico. Como artista, posso dizer que a bonita frase que diz que “o artista vai onde o povo está”, muitas vezes é uma mentira. Ora por conta dos artistas, ora por conta das dificuldades econômicas do fazer cultura. Muitos artistas cantam o povo, mas tal qual o mau político, quer distância dele. Não prego o desapego nem a miséria para o artista,  apenas não acho verdadeiro cantar o samba de longe, sem subir o morro de vez em quanto pra tomar ao menhos um cafézinho. Que verdade teria um artista pura classe média cantando “Barracão de Zinco”?

E digo que tal contra-senso causa tamanha cegueira, que tal qual os ratinhos brancos que correm sem parar naquelas rodinhas-gaiolas de arame, não nos damos conta nem mesmo do cansaço e da estupidez que é correr sem sair do mesmo lugar. O Brasil vive um belo momento na política social e avançamos muito. Mesmo assim, por meio da morte da própria política e do contínuo fortalecimento da economia. A classe média (econômica) aumenta. Não vejo nisso um perigo. Pelo contrário, vejo nisso muita alegria. O perigo está no aumento da classe média medíocre, consumista, imitadora da pobreza cultural estrangeira. Tenho medo do fortalecimento do positivismo já tão enraizado no nosso país. Que o mercado iluda o trabalhador que ganha dignidade e o transforme em medíocre no senso mediano de classe média. O que será do samba ainda mais?

Esse senso classe média permeia todos os seguimentos. Toxina botulínica deixa o sorrizo em um tom ideal, não se pode gargalhar nem expressar rudez. Toda mulher mediana, leia-se, de classe média, deve sorrir medianamente. Sim, a burguesia quer ficar rica. E os ricos alimentam esse querer porque sabem que isso alimenta sua riqueza. Relaciono então nosso ratinho medíocre com a frase de Cazuza: “a burguesia fede e quer ficar rica”. Cazuza, que hoje me faz sentido de uma forma alargada*,  ao que me parece, foi um artista de posses, porém, não aguçou jamais a estupidez de ninguém. Desconfio que ele não era mediano não. Acho que ele era das duas pontas. Hora péssimo, hora excelente. E é desse tipo de gente que talvez virá alguma luz.

Cafonice não é medíocridade*. Chacrinha. Um velho rodeado de mulheres sensuais num cassino em pleno sábado a tarde distribuindo frutas tropicais e bacalhau para um auditório formado por estudantes da classe baixa. Sem média. Alcione sabe cantar e abre seu berreiro potente e fala da dor de cotovelo que as mulheres e cantoras medianas sufocam sem poder se expressar, vide botulínica, nos divãs e nas faturas dos cartões de crédito.

As filas nos grandes teatros comerciais não existem apesar dos espetáculos baterem recordes de público. Falo da fila da bilheteria, pois a fila do estacionamento…. Vixe! Os medianos compram seus ingressos on line. E saem das salas sorrindo botulinicamente, com a sensação de terem cumprido o protocolo do senso fraudador do contrato que diz que, embora seus olhos tenham visto tantas luzes e maravilhas, suas almas não encontraram nada.

As crianças que passam os dias nos CEUs, se por ventura sofrerem abusos ou forem assassinadas, simplesmente sofrem abusos e são assassinadas e podem entrar para as estatísticas. As crianças que moram nos andares de cima e ficam mais próximas do céu, estão mais protegidas. E, se por ventura sofrerem abusos ou forem assassinadas, os alarmes soam anunciando que algo escapou do senso médio previsto. Oxalá proteja todas as crianças!

E mesmo usando bilhete único e metrô lotado pelos corredores urbanos paulistas, todos os usuários são do senso. Todos nós somos medianos. Todos nós somos da classe média. Claro. O que vai nos selar com tais é o fato de aparecer um vendedor ambulante ou um pedinte contando sua saga. Pronto. Sempre que há alguém menos favorecido que eu, reafirmo minha posição de classe média.

Esse contrato social de boca suja, diz que o vergonhoso é estar abaixo da média.

Eu e todos os escrotos, que transitam entre o mais alto possível e o mais baixo visível, nos inojamos com o senso da média.

Problemas e discussões rodam em torno apenas do salário mínimo. O máximo é o impensável. Enquanto que a média salarial é o alvo. Uma média alta sempre. Claro. Contra-senso. Sempre.

As casas de alvenaria poderiam indicar o progresso das favelas. Nelas praticamente não existem mais os barracos de madeira e papelão. Abaixo das favelas, as pontes, albergues, viadutos e penitenciárias. Favela também é classe média. Favelas verticais com câmera de segurança, taxa de lixo e condomínio fingem não ser.

E a mídia, gozando de sua liberdade e total contra-senso no que se refere a ética e a moral, se manifesta, denuncia, mobiliza, divulga e, claro, por ser operada por ex-estudantes de comunicação e jornalismo da classe média, segue sobre tudo isso, fazendo uma média.

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NOTAS ESCLARECIMENTOS E DICAS BAIXAS E ALTAS:

Achei interessante indicar, apontar ou simplesmente esclarecer pontos que por ventura possam merecer um certo além. Coisas como de onde surgiu tal coisa ou assunto. Esses pontos não serão sinalizados com números referenciais como em notas de rodapé, mas com asterisco. Então…..

*sobre não ter um carro, me lembrei de um livro da coleção Baderna, uma publicação que saiu de circulação e tinha o apoio da PUC-SP em favor da filosofia e do pensamento no Brasil, com títulos muito bacanas. Sugiro “A ditadura do automóvel” da coleção Baderna encontrados em sebos de qualidade.

* sobre fazer sentido de uma forma alargada, tem a ver com o ponto de vista de Hans-Georg Gadamer sobre hermenêutica filosófica, onde de certa forma, uma experiência com a arte nos proporciona um alargamento do nosso ser. Uma melhora, talvez. No caso da frase de Cazuza, eu hoje pude mergulhar sem reservas na sua proposta, ao contrário do que fiz no final dos anos 80.

* sobre cafonice, mediocridade e Chacrinha, relaciono tudo isso com tropicalismo, modernismo e antropofagia. A busca por esses assuntos pode ser espontânea e o achado também. Vale YouTube, o livrinho do Celso Favareto sobre o tropicalismo, informação sobre Oswald de Andrade, Villa-Lobos ou até mesmo ensaios em escolas de samba. Livre. Se conceituar demais pode virar coisa de classe média. Cuidado. E pra desequilibrar mesmo a mediocridade, sugiro visitar ensaios das escolas de samba da zona norte e da zona leste. Nada contra a Vai-Vai, que é tradição, mas o fato dela ficar localizada no centro, acaba ajudando o senso mediano que tem preguiça de ir até escolas também tradicionais como Nenê de Vila Matilde e outras que têm um samba bom, como a Leandro de Itaquera, que ficam na zona leste. Sair da medíocridade existe sacrifício.

*sobre a arte do povo brasileiro, estou me referindo a isso mesmo. Diferencio como Marilena Chauí, o nacional e o popular. Digo que o povo que não influi nas estatísticas é quem faz a arte que os artistas de classe média se apaixonam e levam adiante até que a paixão acaba e o povo não volta para o esquecimento. O povo continua nele. Pinturas do período colonial do Brasil são belíssimas retratando o tempo da escravidão. O batuque dos negros é xique e maravilhoso. Mas não tinge o coração nem a pele da classe média. Artistas medíocres brincam de ser negros e mantém seus sobrenomes importados no seus nomes artísticos. Jésum Biasin é Biasin. Mas ele nunca brincou de ser negro. Jésum é povo. É xique por que é de verdade. Renato Borghi e todos os artistas verdadeiros também.

* sobre eu tirar o meu da reta, digo que virei Rocky, mas continuei Gomes e sou de Sousa. Estou na média mas sou artista e estou do lado esquerdo e direito. Estou nas duas pontas. Sou dos nomes de frutas com os Mangabeiras e Pereiras. Negros e judeus de nomes inventados abaixo do equador. O meu não está na reta porque transito de um extremo ao outro. Não faço média em nenhuma das duas pontas. Eu sou eu sempre. E o meu sempre me acompanha, dirrétinho. Saravá!

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